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As dificuldades de inclusão dos Surdos Brasileiros e dos Intérpretes de LIBRAS nas Universidades Públicas
Publicado no dia 18 de outubro de 2005 – AdUFRJ
SEÇÃO SINDICAL DOS DOCENTES DA UFRJ
www.adufrj.org.br
Myrna Salerno
Este é um depoimento que objetiva comentar um pouco sobre as dificuldades dos Surdos brasileiros já formados em Lingüística e outras áreas, que trabalham em Universidades Brasileiras Públicas ou não, Escolas Municipais, Estaduais ou Federais do Ensino Fundamental e Médio, que necessitam de intérpretes capacitados em LIBRAS durante as aulas.
O objetivo deste artigo é não somente falar da falta de intérpretes de LIBRAS no Brasil, mas também ressaltar a reclamação dos Surdos Brasileiros, que não conseguem entrar nas Universidades Públicas, devido à dificuldade que possuem em relação à Língua Portuguesa, que é a 2ª língua dos surdos, pois a 1ª língua dos Surdos é a LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais).
No passado, as escolas de ou para Surdos (públicas) eram precárias e durante muitos anos a sociedade brasileira ouvinte proibiu o uso da Língua de Sinais aqui no Brasil. Somente no ano de 2002, com muita luta e esforço, a Língua de Sinais foi reconhecida como Língua oficial dos Surdos, através da Lei da LIBRAS n° 10.436. Apesar de ter conseguido essa vitória, ainda há muitas metas a serem atingidas em escolas e universidades públicas para que se tenham professores Surdos Mestres ou Doutores, também para que se tenham Intérpretes de LIBRAS, assim como professores bilíngües, para atuarem em salas de aula em todas as áreas, para que o surdo sinta tranqüilidade em seus estudos.
Outra preocupação é a falta de Escolas de Surdos, que diminuem a cada dia devido às metas do MEC e à Globalização que defenderam a Educação Inclusiva. Ela tem como objetivo incluir o surdo em escolas regulares por um período de 10 anos. A prioridade do governo atual é garantir a educação gratuita e obrigatória "Inclusão de Surdos na rede oficial de ensino objetiva colocar as crianças em condições sociais de vincular-se aos ouvintes". O único problema foi o aparecimento dessa política sem preparo, que fez com que o MEC fizesse uma parceria com a FENEIS, para a elaboração dos cursos de Capacitação dos Instrutores Surdos e a Capacitação dos Intérpretes de LIBRAS que formaram de forma ineficiente os intérpretes de LIBRAS e um número insuficiente de Instrutores Surdos para atender a necessidade.
A minha pergunta: as escolas de surdos vão continuar a diminuir?
Professores, pesquisadores ouvintes, Universidades deveriam procurar as Associações de Surdos do seu próprio município ou estado, pois elas (as associações) devem estar abertas para trabalhar em parceria com os profissionais e vice-versa, e os profissionais darem oportunidade aos Surdos, pois eles podem ser seus colaboradores em pesquisas e projetos. Ceder espaços para as associações de surdos pode contribuir para desenvolver a cultura e identidade Surda.
Percebe-se também que no momento parece que tudo ficou pior que antes; tem-se a impressão que a sociedade brasileira ouvinte voltou a defender o "Oralismo". Aparecem muitas reportagens nos jornais e TV sobre "Os portadores de necessidades educativas especiais" (todas as deficiências).
Existem surdos que não aceitam o termo "Deficiente Auditivo" escolhido pelos profissionais da área de saúde, como médicos e fonoaudiólogos. "Deficientes Auditivos" são pessoas que não convivem com os Surdos, pessoas que perderam a audição leve ou moderadamente e ouvem um pouco, falando ou escrevendo bem o português e não usam ou não querem usar a LIBRAS.
Os surdos que não aceitam o termo "Deficiente Auditivo" mostra que as reportagens não conhecem a cultura e a identidade da comunidade surda.
No momento são poucos os Surdos que sabem as duas línguas, por isso, somente 1% de Surdosconsegue entrar nas Universidades Públicas. Desta maneira, pouco adiantou a presença dos Intérpretes de LIBRAS nos vestibulares. Cheguei à conclusão que o que falta, e é fundamental para o Surdo, é "entender" as questões da Língua Portuguesa.
A sociedade brasileira ouvinte diz que existe uma lei que obriga a inclusão de 5% de portadores de todas as deficiências nas escolas, universidades e também no mercado profissional, mas eu não acredito muito, pois, sabemos que os deficientes físicos conseguem mais, por serem pessoas ouvintes e dominarem o português. Somente barreiras arquitetônicas impedem sua entrada nas universidades ou empresas.
Há uma revolta da comunidade Surda a respeito da inclusão de ouvintes na futura Faculdade do INES (Instituto Educacional Educação dos Surdos) no Rio de Janeiro, por esta ser a primeira escola federal de Surdos. No próximo ano, em 2006, vai se iniciar o curso de pedagogia. A profa. Steny, diretora do INES comentou, em março de 2005, que vai colocar 50% para os Surdos e os 50% para os ouvintes.
Já que existem tantos cursos de pedagogia em universidades públicas para pessoas ouvintes, eu pergunto: por que pessoas ouvintes desejam entrar em faculdade de Surdos?
Nós Surdos sofremos durante anos para conseguirmos apenas 1% das vagas nas universidades públicas, e agora que existe uma para surdos, querem colocar 50% de alunos ouvintes? Isso é justo? Isso é uma vergonha! (como diria Boris Casoy)
A Comunidade Surda se revolta também com o fato de existirem cotas para negros e mulatos. Apesar de a maioria deles ser de uma classe social mais baixa, e por causa disso terem uma formação escolar mais fraca, eles têm a vantagem de falar a língua portuguesa.
Quanto a nós que não falamos a Língua Portuguesa e sim LIBRAS como ficamos? Onde estão os nossos direitos?
Gostaria de lembrar que no dia 26 de setembro é o dia especial para a comunidade Surda, em que comemoramos o "dia dos Surdos", toda luta por nossos direitos e cidadania. Se a sociedade brasileira ouvinte e o MEC tivessem reconhecido verdadeiramente o valor da nossa língua, a LIBRAS, e a Cultura Surda Brasileira, tivessem incentivado a presença dos Intérpretes de LIBRAS, já estaríamos bem avançados e desenvolvidos como acontece com os Surdos de outros países que reconhecem a Língua de Sinais como língua natural das pessoas Surdas.
Porém há muitos anos que lutamos pela oficialização da LIBRAS, mas não estamos ainda satisfeitos com a falta de organização e preparo na sociedade brasileira ouvinte, nas Universidades Públicas e do MEC.
Na maioria das vezes os intérpretes de LIBRAS têm somente o Ensino Médio, pois não existe ainda a Formação dos Intérpretes de LIBRAS em níveis superiores nas Universidades Públicas.
Aproveito também para relatar um pouco sobre a minha vinda ao Rio em 1991: medi esforços e sacrifícios ao me mudar para o Rio de Janeiro, deixando minha família, para atender ao convite para participar da equipe de pesquisadores do Projeto Estudos da LIBRAS, Aquisição de Linguagem e Aplicação na Educação da Faculdade de Letras da UFRJ. Neste mesmo ano comecei a ministrar Curso de Extensão Língua Brasileira de Sinais (nível I), pela Diretoria Adjunta de Extensão e Cultura da Faculdade de Letras da UFRJ. Paralelamente, ingressei no meu primeiro Curso de Especialização na Faculdade de Letras da UFRJ, intitulado Contribuição da Lingüística para a Problemática Linguagem e Surdez, concluindo-o em 1992.
Percebi que não havia intérprete de LIBRAS para atuar nas aulas. Mesmo assim, dei prosseguimento, recebendo auxílio de meus colegas que conhecem um pouco de LIBRAS.
Em 1994, o meu interesse pelos estudos 1ingüísticos aumentava a cada dia e atendendo a minha necessidade de conhecer mais o português e, conseqüentemente, a minha própria Língua de Sinais, resolvi fazer um outro curso de especialização, na Faculdade de Letras da UFRJ, intitulado Lingüística Aplicada ao Ensino de Português, concluído em 1995. Desta vez, contei com a colaboração da colega de curso Emeli Costa Leite, que fez a interpretação (português/LIBRAS) de quase todas as aulas.
De 1996 até hoje não pude mais continuar meus estudos devido às dificuldades que tenho com a minha 2ª língua, ou seja, com a Língua Portuguesa e também a Língua Inglesa. Fato que dificulta muitíssimo o acompanhamento das aulas e também na participação em Fóruns, Encontros, Congressos, de discussões existentes nas Universidades, além de dificultar também o acompanhamento nas reuniões do departamento de Lingüística, em que eu também sou "docente”, a única professora auxiliar IV, em disciplina optativa, no ensino da graduação da Faculdade de Letras e da Faculdade de Fonoaudiologia e as demais.
Muitas vezes paguei do meu próprio bolso intérpretes da FENEIS para me atenderem e também contei com auxílio de meus alunos do curso de LIBRAS I que possuíam um pouco de conhecimento para interpretar e para me ajudar em atividades relacionadas às minhas aulas inaugurais nos cursos de LIBRAS do ensino de graduação. É fundamental a presença de um intérprete de LIBRAS nestas aulas, para que os objetivos e metas a serem alcançadas nestes cursos possam ser alcançados, sem dúvidas e mal-entendidos conseqüentes de problemas de comunicação. Dessa maneira venho obtendo êxito em meus cursos na UFRJ.
Uma outra justificativa do meu interesse pela vaga do mestrado em Lingüística da Língua Brasileira de Sinais - LIBRAS do Departamento de Lingüística da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é que este curso é muito importante para a minha formação acadêmica. No momento, a UFRJ não possui os conhecimentos da Língua Brasileira de Sinais - LIBRAS, apesar de ter uma pesquisadora de Lingüística de Língua de Sinais, a Professora Doutora Lucinda Ferreira Brito. Hoje em dia, por motivos particulares a pesquisa sobre Linguagem e Surdez está parada. Antes, como aluna, era colaboradora de outros colegas que já se formaram no Mestrado ou Doutorado, ajudando em suas pesquisas. Com isso, também tive experiências de estudos lingüísticos em LIBRAS.
Agora falta abrir espaços para Surdos nas Universidades Públicas e também para Intérpretes de LIBRAS, que são fundamentais para o sucesso dos alunos da Faculdade de Letras e de outras áreas. É necessário haver cursos de Pós-Graduação, cursos da Língua Portuguesa para os Surdos ( L2 ) e a Língua Inglesa para os Surdos ( L3 ), curso para a formação dos Intérpretes de LIBRAS e a continuidade das pesquisas em LIBRAS no projeto: Estudos da LIBRAS, Aquisição de Linguagem, Aplicação na Educação do Laboratório da Linguagem e Surdez, da Faculdade de Letras da UFRJ.
CONSIDERAÇÕES FINAIS:
O depoimento pessoal descrito serve de alerta pois tenho certeza de que num futuro muito próximo, a Universidade Federal do Rio de Janeiro e outras Universidades Brasileiras garantirão o direito de alunos ou funcionários surdos terem as vagas nas Universidades Públicas e com a presença dos Intérpretes de LIBRAS em todas as áreas desejadas.
Até quando os Surdos brasileiros vão esperar pela garantia do direito à sua Língua natural da LIBRAS e aos serviços de Intérpretes de LIBRAS?
É um ABSURDO o que reivindicamos?
Queremos respostas e ações.
* Profa. de LIBRAS
(Estrutura da Língua Brasileira de Sinais)
Faculdade de Letras - UFRJ - R
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