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De surdo para surdo
Surda conclui faculdade de gastronomia
Resido no bairro de Ipanema e nasci com surdez congênita, isto é, surda de nascença. Tive uma infância normal, como a de qualquer criança ouvinte. Aos três anos de idade fui estudar no Instituto Nossa Senhora de Londres na Gávea, onde convivi com outras crianças surdas e aprendi a ler, escrever, falar labialmente e por sinais, sempre com o acompanhamento de fonoaudiólogos da instituição.
Na escola sempre tive ótimo aproveitamento, de modo que, quando fui para o Primeiro Grau (antigo ginásio), pude estudar em colégio de ouvintes. Era a única aluna surda em colégio de ouvintes.
Meu desenvolvimento foi sempre satisfatório em todas as matérias que cursei. Fiz curso de informática com excelente aproveitamento e hoje domino plenamente os computadores.
Minha adolescência foi normalíssima, tendo toda a atenção e orientação, principalmente de minha mãe, que também me esclareceu sobre a sexualidade e sempre me deu liberdade para perguntar o que fosse necessário, para que nunca fosse surpreendida.
Desenvolvi, por observação, e depois por prática, a dança de salão, com muito ritmo e excelente marcação. Também fiz aulas de balé desde os cinco anos e, a partir dos 11 anos, comecei a praticar equitação, mergulho, sapateado e passei a freqüentar bailes vespertinos de clubes e agremiações.
Hoje, curso o quarto período de Gastronomia e Culinária na Faculdade Estácio de Sá e tenho ótimo aproveitamento, sendo a primeira chef aluna surda em todo o Brasil a fazer esse curso, que iniciei em 2003 e, como não poderia deixar de ser, cozinho como ninguém e faço diversas viagens para participar de Congressos e Simpósios Gastronômicos.
Consegui, com muita dificuldade, obter um intérprete de LIBRAS em minha faculdade, já que havia muito preconceito, mas, com esforço, superei o problema.
Também sou voluntária na fiscalização dos direitos dos portadores de deficiência no que diz respeito a bares, restaurantes, hotéis e eventos. Sugiro a todos os maitres que coloquem nos cardápios, o menu am Braile para os cegos e prestem um atendimento especial as pessoas surdas ou portadoras de qualquer tipo de deficiência.
Os famosos Gourmets devem se preocupar com o atendimento especial aos deficientes, para que eles possam deglutir suas refeições com o devido prazer. Há inúmeros turistas deficientes que percorrem o nosso país. Nos países civilizados, existem Chefs surdos, quem sabe aqui no Brasil não posso ser a pioneira? Agradeço aos meus conceituados chefs: Otto Borges, Ronald Villard, Claude Troisgros, Claude Jean, Juan, Ronald e outrosmestres da arte da cozinha que incentivaram-me nos estudos gastronômicos.
Agradeço também a minha mãe Creuza Mariano Ziese Oliveira, ao meu pai Roberto Chagas Ziese Oliveira e a minha tia Cristina Mariano Franco Fagundes pelo apoio e pela educação que me deram.
Fonte: www.adefi.org.brartigos004.php
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