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Quinta-Feira, 05 de Maio de 2008
Diretrizes do MEC em relação à educação inclusiva
Introdução
O advento da Internet e da comunicação eletrônica em tempo real trouxeram ao
mundo a percepção cada vez maior de que somos uma grande comunidade global
em que povos com diferentes culturas e línguas podem se comunicar e fazer
circular informações sem as dificuldades do passado, quando diversas regiões
do planeta não tinham relações umas com as outras, tamanha a precariedade
dos instrumentos de comunicação e do tempo que isto levava. Essas mudanças
foram acompanhadas no plano econômico, onde o mundo passou a se reunir em
blocos que lidam com populações de línguas, culturas, etnias e religiões
diferentes, levando os países a se posicionarem frente a uma realidade
global, e não apenas regional, como antes faziam. A diversidade, dentro
desta perspectiva, passou a ser vista como algo fundamental, refletido na
necessidade da construção de espaços sociais inclusivos que levassem em
conta as características e necessidades de todos os cidadãos.
Em vista desse contexto, a Educação passa a refletir essas idéias por meio
do conceito de Educação Inclusiva, em que todas as crianças e adolescentes,
sobretudo aqueles que apresentem necessidades educacionais especiais, possam
participar da escola e dela se beneficiar para futuramente adentrar ao mundo
do trabalho. Nesse sentido, caminham as diretrizes do Ministério da Educação
(MEC) que, como representante da esfera federal, irradia para as esferas
estaduais e municipais princípios e diretrizes que devem nortear as práticas
inclusivas dos sistemas educacionais.
A ação do MEC na esfera municipal
A Educação Especial, concebida como uma modalidade de ensino, possui
programas direcionados à inclusão das pessoas com deficiência no sistema,
levando o conhecimento das especificidades necessárias ao atendimento
educacional destas pessoas. A Secretaria de Educação Especial (SEESP), do
MEC, elaborou programas que visam contribuir com esse contexto, entre eles,
o Programa Educação Inclusiva: Direito à Diversidade, que tem como objetivo
disseminar a política de educação inclusiva nos municípios brasileiros.
"Programa, iniciado em 2004, possui como meta compartilhar novos conceitos,
informações e metodologias no âmbito da gestão e também da relação
pedagógica em todos os estados brasileiros" (SEESP/MEC - extraído do
material do Programa Educação Inclusiva: Direito à Diversidade, Brasília
2004).
É responsabilidade desse programa disponibilizar equipamentos, mobiliário e
material pedagógico para a implantação de salas de recursos nos municípios
atendidos por ele. A sala de recursos é um dos dispositivos de apoio à
inclusão e, segundo definição do MEC, consiste em:
Um ambiente de natureza pedagógica, orientado por professor especializado,
que suplementa (no caso dos superdotados) e complementa (para os demais
alunos) o atendimento educacional realizado em classes comuns da rede
regular de ensino. Esse serviço realiza-se em escolas, em local dotado de
equipamentos e recursos pedagógicos adequados às necessidades educacionais
especiais dos alunos, podendo estender-se a alunos de escolas próximas, nas
quais ainda não exista esse atendimento. Pode ser realizado individualmente
ou em pequenos grupos, para alunos que apresentem necessidades educacionais
especiais, em horário diferente daquele em que freqüentam a classe comum.
O programa elaborou, ainda, quatro cartilhas que propõem abordar a gestão
nas escolas sob diferentes enfoques: A Fundamentação Filosófica, O
Município, A Escola e A Família. De acordo com o material, "os municípios
brasileiros conquistaram maior autonomia a partir da descentralização do
poder estabelecida pela Constituição de 1988. A partir de então, cada
município adquiriu poder de, tendo como parâmetros as políticas nacionais e
estaduais, analisar sua realidade local e decidir como se caracterizarão os
serviços que serão disponibilizados para sua população".
Portanto, essa política descentralizada permite levar em conta as
necessidades de cada localidade, ao mesmo tempo em que deve seguir
diretrizes gerais. Algumas destas diretrizes dizem respeito à montagem das
salas de aula inclusivas que devem atender a três critérios:
1) A escola deve ser um ambiente que reflita a sociedade como ela é;
2) Necessidade de garantir a mesma faixa etária dos grupos de aluno/série;
3) Flexibilização da temporalidade de permanência do aluno numa série.
O primeiro critério aponta que o número de crianças com deficiência, ou
alguma necessidade educacional especial, em sala de aula deve corresponder
ao número de pessoas com deficiência presentes naquela comunidade. Então, se
houver 14% de pessoas com deficiência naquela região o número de crianças
incluídas na sala de aula não deverá ultrapassar esta porcentagem.
O segundo critério afirma que os alunos com necessidades educacionais
especiais devem freqüentar grupos de sua faixa etária como qualquer outro
aluno. Este critério foi estabelecido por conta de equívocos no tocante a
que série alunos com dificuldades maiores deveriam ser inseridos. Desta
forma poderia acontecer de um adolescente, de 15 anos, com deficiência
mental ser colocado em uma sala com crianças de 6 anos de idade. O que se
pondera nesses casos é que, mesmo que o adolescente tenha idade mental
inferior, seu desenvolvimento físico é de um adolescente, portanto deve-se
respeitar estas características. Além disso, na companhia de alunos mais
novos pode-se privá-lo de aprendizagens importantes para seu
desenvolvimento. Da mesma forma que para qualquer pessoa, já adolescente,
estar no meio de crianças implicaria em uma série de conseqüências
emocionais e de sentimentos de inadequação em relação aos anseios. Para uma
pessoa com deficiência isto não seria diferente.
O terceiro critério é o da temporalidade flexível do ano letivo. Algumas
crianças podem apresentar dificuldades para acompanhar conteúdos que estão
sendo ensinados ao longo do ano. Portanto, para que elas possam ser
atendidas neste aspecto, sem correrem o risco de ficar defasadas no critério
série/faixa etária, deve-se criar estratégias de ampliação da carga horária
de forma a atender às demandas pedagógicas dessas crianças. A sala de
recursos funciona como um desses mecanismos, na medida em que complementa o
atendimento educacional realizado nas classes comuns. O acesso a essa
complementação curricular deverá ser garantida a todos, sem, todavia ser
considerada obrigatória ou imposta pela escola.
As ações do MEC na esfera estadual
Um dos dispositivos criados pela Secretaria de Educação Especial para
oferecer suporte na inclusão dos alunos com algum tipo de deficiência nos
estados foi a criação do Centro de Apoio Pedagógico Especializado (CAPE). Os
CAPEs, que atendem a todas as deficiências, possuem regime descentralizado e
recebem as demandas provenientes das escolas públicas estaduais.
Os CAPEs dão suporte na inclusão de alunos com deficiência de escolas
públicas estaduais, preparando material de orientação e capacitação aos
professores
O CAPE de São Paulo, por exemplo, é responsável por todas as cerca de 5.800
escolas estaduais. O trabalho é realizado em parceria com as 90 diretorias
de ensino. Portanto, o contato com as escolas chega sempre mediado pela
diretoria de ensino que possui, no mínimo, dois técnicos responsáveis pelo
trabalho de inclusão; um supervisor de educação especial, que cuida da
gestão do processo, e o assistente técnico pedagógico de educação especial,
que trata das capacitações propriamente ditas ao lidar mais diretamente com
os professores e a equipe escolar. A partir dessa demanda, o CAPE prepara
material de orientação e providencia as capacitações que forem necessárias.
Muitas vezes, a necessidade é pelo ensino da língua portuguesa para surdos,
ou mesmo adquirir conhecimentos sobre esporte adaptado, ou ainda pelo
aprendizado do soroban (instrumento de origem oriental que concretiza as
operações matemáticas utilizado no ensino de alunos cegos). As ações do CAPE
são respaldadas pelos programas federais do MEC, como o programa de apoio à
educação de alunos com deficiência visual e o programa de apoio à educação
de alunos com surdez, entre outros.
O programa de apoio à educação de alunos com deficiência visual é
constituído das seguintes ações, conforme o site da SEESP/MEC:
. Centros de Apoio para Atendimento às Pessoas com Deficiência Visual (CAPs)
e Núcleos de Apoio e Produção Braille (NAPPB). Os CAPs são instalados em
parceria com os Estados e Distrito Federal e tem como proposta principal a
geração de materiais didático pedagógicos, como livros e textos em Braille,
ampliados e sonoros para distribuição aos alunos matriculados no ensino
regular, bem como, a organização de espaços educacionais que sirvam de apoio
aos alunos com visão subnormal;
. Programa Nacional do livro Didático/Braille (PNLD) - é uma ação do Fundo
Nacional de Desenvolvimento para Educação (FNDE) que distribui livros
didáticos aos alunos da Educação Básica de 1ª a 8 ª série;
. Comissão Brasileira de Braille - é responsável pela normatização do uso e
do ensino do Sistema Braille no País;
. Comissão Brasileira de Estudos e Pesquisas do Soroban - tem como objetivo
elaborar e propor diretrizes e normas para uso e ensino do soroban;
. Formação de professores - dentre os cursos de formação realizados
destaca-se:
1) curso sobre a utilização do sistema Braille e código matemático
unificado;
2) curso sobre orientação e mobilidade;
3) curso de adaptação e transcrição Braille com vistas à produção de livros
didáticos.
. Instituto Benjamin Contant (IBC) - é uma instituição federal de Educação
Básica que desenvolve junto com o MEC ações de apoio especializado à
educação de alunos cegos visando sua inclusão escolar.
O apoio à Educação de Alunos com Surdez constitui-se de três grandes ações,
conforme a SEESP/MEC :
. Formação de Professores - tendo reconhecido a língua de sinais como base
para a comunicação do surdo, a SEESP desenvolveu o projeto Interiorizando a
LIBRAS (Linguagem Brasileira de Sinais) que prevê a capacitação de
instrutores surdos, professores (surdos e ouvintes) e de intérpretes através
dos seguintes cursos:
1) curso de LIBRAS para instrutores surdos e professores;
2) cursos de Ensino da Língua Portuguesa para Surdos;
3) curso de Interpretação de LIBRAS/Português.
. Criação de Centros de Capacitação de Profissionais da Educação e de
Atendimento às Pessoas com Surdez (CAS) - tem como meta qualificar
profissionais da educação e elaborar material didático específico para a
educação bilíngüe;
. Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES) - é uma instituição
federal de Educação Básica que junto com o MEC desenvolve ações de apoio
especializado à educação do aluno surdo visando sua inclusão escolar.
O Programa Incluir - igualdade de oportunidade e direito à universidade
Por meio da parceria entre a Secretaria de Educação Superior (SESU) e da
Secretaria de Educação Especial, o MEC apóia projetos de instituições
federais de Ensino Superior que garantam o acesso e permanência em igualdade
de oportunidades para estudantes com deficiência. O programa busca promover
o cumprimento dos requisitos legais de acessibilidade, conforme determinação
do Decreto nº 5.296 de 2004 e nº 5626 de 2005.
As propostas de projetos devem atender a pelo menos um dos eixos a seguir:
a)Acessibilidade à comunicação de alunos com deficiência, em todas as
atividades acadêmicas;
b) Aquisição de equipamentos e materiais didáticos específicos destinados ao
uso de alunos com deficiência para a promoção de acessibilidade;
c) Aquisição e adaptação de mobiliários para acessibilidade de pessoas com
deficiência nos diferentes ambientes ou compartimentos da Instituição;
d) Reforma nas edificações para acessibilidade física dos alunos com
deficiência em todos os ambientes;
e) Formação profissional de professores e técnicos para atuação com alunos
com deficiência;
f) Contratação de pessoal para os serviços de atendimento educacional
especializado.
Para mais informações sobre o programa, acesse o portal do MEC.
Programa Educar na Diversidade
Entre 2000 e 2003 a SEESP/ MEC desenvolveu o projeto Educar na Diversidade
dos Países do Mercosul, cujo principal objetivo era formação docente para
trabalho com a inclusão de pessoas tradicionalmente excluídas dos processos
educacionais ou submetidas à educação de qualidade inferior. Participaram
deste projeto cinco países: Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Chile,
financiados pela Organização dos Estados Americanos (OEA).
O material Formação de Professores, Necessidades Especiais em Sala de Aula,
do Fundo das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco),
no início utilizado na formação de professores, foi sendo aprimorado e
enriquecido com as experiências e reflexões vividas pelos participantes do
projeto na realidade das escolas em que atuavam. O resultado foi a produção
de um novo material, agora chamado de Projeto Educar na Diversidade -
material de formação docente - que se destina a Educação Básica (Ensinos
Fundamental e Médio).
Em julho de 2005 começou o Projeto Educar na Diversidade, cujo objetivo,
além de disseminar pelo Brasil a prática e a teoria do material docente era
de enfrentar o problema da "necessidade urgente de desenvolvimento de
respostas educacionais eficientes à diversidade de estilos e ritmos de
aprendizagem nas suas salas de aula através de práticas de ensino inclusivas
nas escolas de rede pública, a fim de garantir a aprendizagem bem sucedida
de todos os estudantes".
O projeto funciona por meio de oficinas de formação de multiplicadores
indicados pela secretaria de educação dos estados e municípios e a ação de
formação de gestores e docentes das escolas participantes do projeto. A
função do multiplicador é a de um colaborador que apóia, de forma
sistemática, as escolas e os docentes no desenvolvimento de políticas e
práticas inclusivas, por meio de visitas regulares às unidades escolares.
As oficinas de formação de gestores e docentes são coordenadas pelos
multiplicadores. Durante estas oficinas, os multiplicadores apresentam o
projeto e material Educar na Diversidade, as competências dos envolvidos
no processo e disseminam, por meio de experiências práticas, as estratégias
de ensino inclusivas que devem ser utilizadas pelos docentes na sala de
aula.
Existem também espaços de troca das experiências por meio da criação de uma
rede virtual que teve como objetivo estimular a reflexão sobre a prática da
sala de aula e a colaboração entre todos os envolvidos através do
compartilhamento sistemático de experiências com relatos de histórias que
acontecem nas salas de aula.
Segundo dados do portal do MEC, até o final de 2006 pretendia-se atingir 30
mil docentes, envolvendo cerca de 660 escolas de todos os estados mais o Distrito Federal.
Existem outros programas do MEC para Educação Inclusiva, dentre eles estão:
. Apoio à Educação Infantil
. Apoio à Educação Profissional
. Apoio Técnico e Pedagógico aos Sistemas de Ensino
. Projeto de Informática na Educação Especial - PROINESP
. Programa de Apoio à Educação Especial - PROES P
Para acessá-los, clique aqui .
Bibliografia
Educação Inclusiva: v. 1: a fundamentação filosófica/coordenação geral
SEESP/MEC ; organização Maria Salete Fábio Aranha - Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Especial, 2004.
Educação Inclusiva: v. 2: o município/coordenação geral SEESP/MEC ;
organização Maria Salete Fábio Aranha - Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Especial, 2004.
Educação Inclusiva: v. 3: a escola/coordenação geral SEESP/MEC ; organização
Maria Salete Fábio Aranha - Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Especial, 2004.