A Família da criança surda, e sua relação com a língua de sinais

A Federação Mundial de Surdos, bem como, a produção científica mais atual relacionada à surdez, colocam a importância e a necessidade de que, após o diagnóstico de surdez na criança, aconteça uma convivência consistente entre a criança surda e seus pais com surdos adultos.

Consideram estas vivencias indispensáveis para a compreensão mais profunda de como se dão as interações entre surdos e ouvintes entre surdos e surdos. Os pais poderão então comparar estas interações e seus padrões habituais de conversação e relacionamento com o filho surdo e ter uma perspectiva realista da surdez.

Em alguns paises, como nos nórdicos e na Inglaterra, estes encontros são parte das políticas públicas de educação e saúde, vistos com naturalidade pela sociedade em geral dentro da qual as comunidades surdas historicamente formadas tem seu papel reconhecido.

Entre nós, esta aproximação habitualmente não acontece, fato que determina grande dificuldade de aceitação por parte das famílias ouvintes da língua de sinais como mediadora indispensável de suas comunicações com o filho surdo.

A realidade da criança surda, em tudo igual a de qualquer outra criança, fora a da comunicação verbal, que nas primeira infância não parece tão revelante, contribui em grande parte para esta resistência que apresentam as famílias a desvelar e a tentar penetrar no mundo das comunidades surdas.

Por este afastamento, também são responsáveis os profissionais da saúde. Médicos que logo após o diagnóstico acenam com intervenções terapêuticas de excelentes resultados quando na realidade estes são relativos, ou pior, sugerem intervenções radicais que envolvem efeitos colaterais inaceitáveis para crianças que tem a sua frente todo um futuro de vertiginosa evolução cientifica.

 Não menos responsáveis os fonoaudiólogos, felizmente em número cada vez menor, que atendem crianças surdas ignorando em sua prática, a necessária inclusão da língua de sinais. A não aceitação da língua de sinais tensiona e desqualifica as relações familiares gerando conflitos, muitas vezes encobertos, de profundas conseqüências para todos os envolvidos e evidente prejuízo para a criança que, vista como deficiente auditiva, será obrigada a postergar a formação de sua identidade surda e, a custa de bastante sofrimento, alcançar metas cujo significado, para ela, será apenas o de satisfazer os seus maiores pois suas interações com os colegas ouvintes, da classe regular onde estiver incluída, serão permeados sempre por uma situação desvantajosa de comparação, geradora de baixa auto-estima e sentimentos de inadequação.

O reconhecimento da diferença e o engajamento na aceitação da comunidade surda propõe às famílias, no inicio, um caminho desconhecido e um esforço extraordinário. Não é fácil dedicar-se a aprender uma língua estrangeira ainda mais se esta é discriminada e não traz qualquer expectativa de ascensão social, pelo contrario, pontua a realidade da surdez da criança que, enquanto ela é pequena, está apenas perceptível. Não é fácil propor-se a conviver com um grupo, até então desconhecido, que é visto como de deficientes e, sobretudo, é muito difícil mudar as expectativas acalentadas em relação ao filho que resultam de valores arraigados.

Aquilo que se propõe para a família ao convidá-la a conhecer as comunidades surdas e ao encaminhar a criança para uma escola de surdos é muito mais do que oferecer a esta a melhor escolha de aprendizagem acadêmica e de inclusão superficial num grupo regular. Propõe-se, com esta escolha, que a criança surda possa ser criança sem adjetivos. Que ela seja livre para comunicar-se e ser comunicada de forma cabal em uma língua que ela domine perfeitamente. Que ela não se sinta inadequada ou incômoda por ser subliminarmente comparada a cada momento com o coleguinha que capta rapidamente todos os estímulos sonoros, enquanto ela precisa se esforçar para, mais adivinhar, do que compreender.

 O estabelecimento de relações sociais significativas que permitam a construção democrática da cidadania depende de uma escola de qualidade e de uma família integrada.

A tarefa de aprender a usar a língua de sinais dentro da família é difícil, mas não é impossível. Temos muitos exemplos que o comprovam, infelizmente os exemplos de famílias conflituadas, de abandono real ou funcional do filho surdo, de adolescentes e adultos surdos com boa comunicação mas emocionalmente instáveis, de exclusão e limitação do papel do membro surdo dentro da família são os que prevalecem.

Para mudar esta cruel realidade é preciso que a sociedade reconheça a existência deste problema e que os responsáveis pela saúde e educação da população respeitem e valorizem o papel das comunidades surdas historicamente constituídas. Só por este caminho o preconceito e a discriminação deixarão de jogar o papel mais importante dentro da realidade da surdez.

A exceção aberta à inclusão dos surdos nas escolas regulares, inserida na * Declaração de Salamanca, que implica no reconhecimento da língua utilizada pelas comunidades surdas, foi um indicativo político importante dentro de um contexto que aponta para a inclusão de todos os alunos. Reduzi-lo a um momento histórico é ignorar as consistentes pesquisas da área, que só a pouco tempo puderam contar com as ferramentas adequadas para chegar a esta conclusão. Aventar com as limitações decorrentes de os surdos usarem a língua de sinais é, além de ignorar que muitos deles só conseguem se comunicar por seu intermédio, ignorar também que ela, embora esteja em processo de formação partindo de um patamar modesto, está avançando muito rapidamente, graças à diminuição do preconceito, ao empenho das comunidades surdas, de algumas instituições publicas e privadas e ao avanço das tecnologias da comunicação.

 Esses avanços podem ser observados nos inúmeros encontros, seminários e congressos ligados à surdez que acontecem com um vigor inusitado e uma independência crescente da tutela dos ouvintes. A vitalidade dos grupos de surdos como os de graduandos da Universidade Luterana  ULBRA  a primeira a colocar intérpretes de LIBRAS em sala de aula, ou a dos doutorandos da UFRGS e a de outras universidades que já seguem o modelo,  permitem que os surdos ascendam a um novo status de  qualificação e apontam às famílias que o caminho da inclusão real é possível.

O dia a dia da criança surda e de sua família pode fluir de forma descontraída, rico em experiência não usuais e desafiantes sem o stress desgastante de buscar sempre uma meta inatingível sem que isto signifique comprometimento de suas oportunidades futuras. Aceitar e trabalhar a diferença dentro da família da forma apontada pelas bases teóricas da moderna psicolingüística é um gargalo que ainda não foi transposto e acarreta um ônus muito grande e já desnecessário para a criança surda, sua família e toda a sociedade.

 Por outro lado, a escola para surdos precisa repensar suas praticas e currículos e construir um novo caminho que, levando em conta a produção cientifica existente e conhecida, se proponha a oferecer aos surdos uma educação de qualidade que lhes possibilite poder apropriar-se do acervo cultural produzido pela humanidade.

Finalmente, o atual momento de reorganização da educação no Brasil é também um desafio que se coloca às comunidades surdas organizadas para que não se omitam quanto às suas reais necessidades e procurem se fazer  presentes oferecendo argumentos, alternativas e soluções para sua própria educação.

*CONFERÊNCIA MUNDIAL DE EDUCAÇÃO PARA TODOS. Declaração de Salamanca. Salamanca, Espanha, 1994.

Mariana Rossi stumpf
marianars@qbnet.com.br
Mãe de surda
Psicopedagoga  Especialista em logopedia pela Universidade de Madri

 

 

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