Introdução aos Estudos Sobre a Libras

Muitas pessoas acreditam que a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) é a Língua Portuguesa feita com as mãos, na qual os sinais substituem as palavras desta língua. Outras pensam que ela é uma linguagem como a linguagem das abe- lhas ou do corpo, como a mímica. Muitas pensam, ainda, que ela é somente uma conjunto de gestos que interpretam as lín- guas orais. Entre as pessoas que acreditam que liBRAS é realmente uma língua, há algumas que pensam que ela é limi- tada e expressa apenas informações concretas, e que não é capaz de transmitir idéias abstratas.

Pesquisas sobre as Línguas de Sinais vêm mostrando que estas línguas são comparáveis em complexidade e expressividade a quaisquer línguas orais. Estas línguas expres- sam idéias sutis, complexas e abstratas. Os seus usuários po- dem discutir filosofia, literatura ou política, além de esportes, trabalho, moda e utilizá-Ia com função estética para fazer po- esias, estórias, teatro e humor.
Como toda língua, as Línguas de Sinais aumentam seus vocabulários com novos sinais introduzidos pelas Comunida- des Surdas em resposta às mudanças culturais e tecnológicas.
A LIbra é a Língua de Sinais utilizada pelos Surdos que vivem em cidades do Brasil onde existem Comunidades Surdas, mas além dela, há registros de uma outra Língua de Sinais que é utilizada pelos índios Urubus-Kaapor, na Flores- ta Amazônica.
A Libras como toda Língua de Sinais, é uma língua de modalidade gestual-visual porque utiliza, como canal ou meio de comunicação, movimentos gestuais e expressões faciais que são percebidos pela visão; portanto, diferencia da Língua Por- tuguesa, que é uma língua de modalidade oral-auditiva por utilizar, como canal ou meio de comunicação, sons articula- dos que são percebidos pelos ouvidos. Mas, as diferenças não estão somente na utilização de canais diferentes, estão tam- bém nas estruturas gramaticais de cada língua.
Embora com as diferenças peculiares a cada língua, todas as línguas possuem algumas semelhanças que a identificam como língua e não linguagem como, por exemplo, a lingua- gem das abelhas, dos golfinhos, dos macacos, enfim, a comu- nicação dos animais.
Uma semelhança entre as línguas é que todas são estruturadas a partir de unidades mínimas que formam uni- dades mais complexas, ou seja, todas possuem os seguintes níveis lingüísticos: o fonológico, o morfológico, o sintático, o semântico e o pragmático.
No nível fonológico, as línguas são formadas de fonemas. Os fonemas só têm valor contrastivo, não têm significado mas, a partir das regras de cada língua, se combinam para formar os morfemas e estes as palavras.
Na língua portuguesa, os fonemas I ml I nl I si I ai I el I il podem se combinar e formar a palavra I meninasl.
No nível morfológico, esta palavra é formada pelos morfemas {menin-} {-a} {-s}. Diferentemente dos fonemas, cada um destes morfemas tem um significado: {menin-} é o radical desta palavra e significa "criança", o morfema {-a} signi- fica "gênero feminino" e o morfema {-s} significa "plural".
No nível sintático, esta palavra pode se combinar com outras para formar a frase, que precisa ter um sentido em coe- rência com o significado das palavra em um contexto, o que corresponde aos níveis semântico (significado) e prdgmático (sen- tido no contexto: onde está sendo usada) respectivamente.
Outra semelhança entre as línguas é que os usuários de qualquer língua podem expressar seus pensamentos diferen- temente, por isso uma pessoa que fala uma determinada língua a utiliza de acordo com o contexto: o modo de se falar com um amigo não é igual ao de se falar com uma pessoa estranha. Isso é o que se chama de registro. Quando se aprende uma língua está aprendendo também a utilizá-Ia a partir do contexto.

Outra semelhança também é que todas as línguas pos suem diferenças quanto ao seu uso em relação à região, ao grupo social, à faixa etária e ao sexo. O ensino oficial de uma língua sempre trabalha com a norma culta, a norma padrão, que é utilizada na forma escrita e falada e sempre toma algu- ma região e um grupo social como padrão.

Ao se atribuir às Línguas de Sinais o status de língua é porque elas, embora sendo de modalidade diferente, possuem também estas características em relação às diferenças regio- nais, socioculturais, entre outras, e em relação às suas estrutu- ras que também são compostas pelos níveis descritos acima. O que é denominado de palavra ou item lexical nas línguas orais-auditivas, são denominados sinais nas Unguas de Sinais.

Os sinais são formados a partir da combinação do movi- mento das mãos com um determinado formato em um deter- minado lugar, podendo este lugar ser uma parte do corpo ou um espaço em frente ao corpo. Estas articulações das mãos, que podem ser comparadas aos fonemas e às vezes aos morfemas, são chamadas de parâmetros, portanto, nas Lín- guas de Sinais podem ser encontrados os seguintes parâmetros:

1. configuração das mãos: são formas das mãos, que po- dem ser da datilologia (alfabeto manual) ou outras formas feitas pela mão predominante (mão direita para os destros), ou pelas duas mãos do emissor ou sinalizador. Os sinais APRENDER, LARANJA e ADORAR têm a mesma confi- guração de mão;

2. ponto de articulação: é o lugar onde incide a mão predo- minante configurada, podendo esta tocar alguma parte do corpo ou estar em um espaço neutro vertical (do meio do corpo até à cabeça) e horizontal (à frente do emissor). Os sinais TRABALHAR, BRINCAR, CONSERTAR são feitos no espaço neutro e os sinais ESQUECER, APRENDER e PENSAR são feitos na testa;

3. movimento: os sinais podem ter um movimento ou não. Os sinais citados acima tem movimento, com exceção de PENSAR que, como os sinais AJOELHAR, EM-PÉ, não tem movimento;

4. orientação: os sinais podem ter uma direção e a inversão desta pode significar idéia de oposição, contrário ou concor- dância número-pessoal, como os sinais QUERER E QUE- RER-NAo; IR e VIR;

5. Expressão racial e/ou corporal: muitos sinais, além dos quatro parâmetros mencionados acima, em sua configuração tem como traço diferenciador também a expressão facial e/ou corporal, como os sinaisALEGREeTR]STE. Há sinais feitos somente com a bochecha como LADRAO, ATO-SEXUAL.

Na combinação destes quatro parâmetros, ou cinco, tem- se o sinal. Falar com as mãos é, portanto, combinar estes ele- mentos que formam as palavras e estas formam as frases em um contexto.

Em todos os pat..es, os Surdos são minorias lingüísticas como outras, mas não devido à inúgração ou à etnia, já que nascem de famílias que falam a língua oficial da comunidade maior, a qual também pertencem por etnia; eles são minoria lingüística por se organizarem em associações onde o fator principal de agregação é a utilização de uma língua gestual- visual por quase todos os associados. Sua integração está no fato de poderem ter um espaço onde não há repressão de sua condição de Surdo, podendo expressarem-se da maneira que mais Ihes satisfazem para manterem entre si uma situação prazerosa no ato de comunicação.

* Texto extraído do Livro do Professor / Curso Básico de J..íngua Brasileira de Sinaís, denominado "OBRAS EM CONTEXTO", or- ganizado pelo Grupo de Pesquisa (Gp) de LIBRAS e Cultura Surda da FENEIS. Este GP é coordenado pela Professora Tanya Amara Felipe -doutora em Ungüística pela UFRJ.

 

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