Aquisição da Língua de Sinais como Primeira Língua: Direito dos Surdos.

Até mais ou menos cinco anos atrás eu nunca havia percebido a diferença que existe entre a aquisição de língua(gem) pelas pessoas ouvintes (ouvintes) e pelas pessoas Surdas (Surdos).

Comecei a refletir sobre esse assunto, no GP - Grupo de Pesquisa da FENEIS e mais tarde no meu novo ambiente de trabalho no INES, onde estudei todo o ensino fundamental e médio.
O meu primeiro trabalho foi em uma escola de Surdos (CES- Pilar Velazquez); foi lá que comecei a me envolver com a situação de ensino/aprendizagem, sem ter formação no magistério. Infelizmente, não pude continuar lá, pois em seguida fui contratado para trabalhar como digitador na FIOCRUZ, mas continuava no GP da FENEIS.
Quando comecei a trabalhar no INES como educador1 e consultor de LIBRAS, pude estar diariamente com professores, mães, seus filhos ouvintes e Surdos e outros alunos que no passado eu não tinha oportunidade de ver como vejo atualmente.

Pude também ler sobre esse assunto e participar de cursos e grupos de estudo sobre Aquisição de Segunda Língua e de reuniões com o grupo de orientação pedagógica. Na FENEIS, participei do curso de Capacitação de Instrutores/Agentes Multiplicadores, onde também estudei sobre esse tema. Tudo isso me deu base para iniciar minha reflexão sobre a imensa diferença que existe entre o desenvolvimento da criança ouvinte e da criança Surda.
Vou compartilhar, aqui, com os leitores da Revista da FENEIS, algumas das minhas idéias para pesquisa, resumidamente.

A comunidade ouvinte está constantemente privilegiada com todas as situações que garantem a ela a aquisição natural de uma língua, sua primeira língua (L1). Uma língua de modalidade oral-auditiva. Através das interações mediadas pela sua L1, os ouvintes constroem o seu conhecimento de mundo, na família (primeiro com pais), na escola e na sociedade em geral.
Observando os ouvintes de diversas faixas etárias (0 a 5 anos, 6 a 12, os adolescentes e os de mais de 20 anos) é possível constatar que eles vão construindo sua identidade como pessoa, de forma natural, envolvidos em situações que dão a eles condições de entenderem o mundo e se relacionarem com o ambiente a sua volta. A língua é uma herança que os filhos recebem naturalmente dos seus pais, da escola etc... Essa herança tem como conseqüência a sua emancipação, já que os processos de aprendizagem e comunicação contam com o acesso pleno a uma língua.

A criança ouvinte acessa facilmente a língua no seu ambiente. Vejamos o que diz SWAIN (1986): “A aceitação da língua materna na casa e na escola é claramente, então, um dos primeiros passos para criar um ambiente onde o aprendizado possa ocorrer em um ambiente que favoreça sentimentos de auto-estima e auto-confiança. Mas, a aceitação da língua materna é apenas o começo. Encorajamento ativo (incentivo) para utilizar a língua materna na escola é igualmente importante. Isso pode ser feito de variadas formas. Um modo, naturalmente, é usar a língua como um meio de instrução, que não apenas melhore a compreensão dos alunos, com a conseqüente melhora do desempenho escolar, mas também forneça evidência concreta de que sua língua materna é útil e um instrumento valorizado. Os professores podem também pedir às crianças que busquem a cooperação dos seus pais na preparação de trabalhos sobre suas tradições culturais, histórias da família, estórias familiares, contos folclóricos, brincadeiras, etc. Pessoas da comunidade, como artistas, músicos, atletas e comerciantes que são fluentes na primeira língua das crianças podem ser trazidas para falar com elas (Legaretta-Marcaida, 1981). O que quer que possa ser feito para envolver a família e a comunidade no programa escolar ajudará a convencer os alunos de que a escola é sincera no seu respeito para com sua língua e sua cultura.”
Essas afirmações demonstram que os ouvintes têm a garantia de um ambiente favorável para se desenvolverem pela mediação de uma língua.
Agora vamos ver o que acontece com a comunidade Surda.
Os Surdos não adquirem naturalmente sua Primeira Língua como os ouvintes, exceto os Surdos filhos de pais Surdos. A maioria dos Surdos, ao longo de sua vida, não recebe a herança da língua pelos seus pais ouvintes. Entretanto, isto poderá acontecer quando forem para a escola de Surdos e começarem a interagir com Língua de Sinais com seus colegas, também Surdos, e essa aquisição será reforçada se os pais freqüentarem com eles as Associações de Surdos. Mas, haverá falhas na aquisição de sua língua, dependendo da idade em que chegar à escola de ouvintes, o que será pior, pois sua aquisição será tardia.
Observando as várias faixas etárias dos Surdos, percebi que os pequeninos não têm língua nenhuma, os maiores estão começando a adquiri-la, e os mais velhos apresentarão falhas na sua aquisição.

Como já expliquei acima sobre os ouvintes, os Surdos não têm garantia de um relacionamento e interações em sua língua natural, a Língua de Sinais, que deveria ser sua L1. Até hoje, a maior preocupação dos profissionais ouvintes na educação de Surdos tem sido com uso de novas tecnologias que ajudem na percepção auditiva. Por isso há mais de 120 anos (final do século XIX e século XX), a comunidade Surda tem sido prejudicada na aquisição de sua língua natural, sua L1. Será que teremos essa garantia no próximo milênio?
Vamos refletir. Será que uma criança Surda, que nasce numa família de pais ouvintes, terá condições de se desenvolver plenamente adquirindo uma língua de modalidade oral-auditiva? É claro que essa criança não terá as mesmas condições e apresentará falhas nessa aquisição e a conseqüência disso será, entre outras, problemas no desenvolvimento de sua aprendizagem (atraso cognitivo), pois não foi exposta adequadamente a uma língua natural.
Se a criança Surda não adquire sua língua natural (a Língua de Sinais), ela conseqüentemente estará prejudicada na construção do conhecimento em geral e também na sua identidade.

Uma outra situação que observo é um casal de Surdos que tem um ou mais filhos Surdos. Esse filho Surdo irá receber de herança a garantia da aquisição de uma língua natural. A língua será adquirida naturalmente através seus pais Surdos. Porém, terá problemas educacionais, pois os ouvintes não garantirão o uso de sua língua para a aquisição de conhecimentos e do Português como sua Segunda Língua. Por enquanto, só o sujeito ouvinte tem garantida a aquisição de sua primeira língua, e construção de sua identidade e de desenvolvimento global. E sujeito Surdo? Onde ele irá adquirir a língua? (Barros, 1998).
Então, Behares, 1996, diz que existe “(...) diferenciação entre as crianças filhas de pais Surdos (ou que estão em contato com input de Língua de Sinais desde o nascimento) e as filhas de pais ouvintes (ou que não estão em contato com esse input)” Essas afirmações referem-se à necessidade da aquisição da Língua de Sinais como Primeira Língua a interação entre os Surdos. Não vai perder e sim compartilhar na interação com input 2 de Língua de Sinais. Assim os Surdos adquirem essa língua.


Eu defendo a garantia de aquisição de Língua de Sinais como Primeira Língua. Eu observo que na comunidade lingüística dos sujeitos ouvintes, eles sempre atingem o processo de aquisição de língua, que jamais perderão com o tempo.

Meu objetivo é pesquisar a experiência da comunidade lingüística dos sujeitos Surdos, em relação à aquisição de sua primeira língua. Como Surdo que sou, filho de pais ouvintes, vivenciei todo esse processo e sinto-me capacitado para essa pesquisa. Então, fica claro que quero pesquisar o processo de aquisição da Língua de Sinais como Primeira Língua por sujeitos Surdos filhos de pais ouvintes.


Pretendo discutir como acontece essa aquisição quando a escola que é doadora da Língua de Sinais, conforme Behares: “A escola atua como “doadora universal” de linguagem em suas múltiplas formas”, mas o sujeito Surdo não compartilha essa língua em outros contextos sociais: família, vizinhos, clube... É importante esclarecer que para a escola ser doadora da linguagem, e principalmente da língua, é imprescindível que seja uma escola de Surdos, como é, por exemplo, o caso do INES no Rio e Concórdia em Porto Alegre - RS.


Na ANPOLL – Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Lingüística, apresentei meu projeto de pesquisa de Aquisição de Língua de Sinais como L1 ao GT (Grupo de Trabalho) de Linguagem e Surdez e discuti o assunto. Os ouvintes têm bloqueado a aquisição da Língua de Sinais pelos Surdos, não permitindo que estes aprendam essa língua quando crianças e também não favorecendo um ambiente adequado para essa aquisição natural da Língua de Sinais. Ouvintes não têm bloqueio na sua aquisição de Língua pois têm garantia para o desenvolvê-la.


As crianças adquirem a Língua de Sinais, espontaneamente, através da comunicação com pessoas fluentes na mesma. A Língua de Sinais torna-se a primeira língua das crianças Surdas as quais não seja bloqueado o acesso à língua delas. Isto possibilita e facilita o desenvolvimento cognitivo dessas crianças. É fundamental que elas tenham contato com Surdos adultos usuários da Língua de Sinais o mais cedo possível para que possam adquirir essa língua naturalmente, possam adquirir a sua identidade Surda, sem bloqueios de comunicação e sem atrasos em seu desenvolvimento cognitivo e lingüístico.
Assim, a Língua de Sinais é para os Surdos o que a língua oral é para os ouvintes. Por isso, mais de cento e vinte anos da educação de Surdos mostram que o tipo de exposição exclusiva à língua oral é completamente insatisfatório para um acesso pleno à segunda língua. A Língua de Sinais tem uma estrutura e gramática próprias, que não são originadas de qualquer língua oral.


Com este texto tentei mostrar aos leitores algumas das diferenças entre Surdos com pais Surdos e Surdos com pais ouvintes. O mais importante que eu gostaria que todos pensassem é que as crianças Surdas não podem esperar até que sejam expostas à sua língua natural. A sua felicidade e emancipação dependem de que essas crianças adquiram o mais cedo possível a Língua de Sinais de sua comunidade.

Nós, Surdos, nos sentimos independentes com e em nossa língua, a Língua de Sinais, nossa primeira língua. Deixem-nos viver em liberdade e em paz com a nossa língua!

Alex Curione

 

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